A história é verdadeira e bem simples. Tão simples que não passa de uma semente. Nada de tão grandioso. Não precisamos de grandes atos para construir felicidade, para fazermos a nossa parte na construção de um mundo melhor. Cada um no seu pedaço. Cada um pode fazer diferença. Não precisamos de super-heróis, mas de pequenas sementes. O mundo não se tornará melhor por decreto, mas por pequenos atos anônimos, ocultos, sem holofotes, câmeras, redes sociais, sem likes.
Tainá e Luma acharam um dinheiro. Estava no meio da rua, largado no chão. Não havia um dono identificável para devolver. Só restava pegar os R$ 10,00. Não havia também grande coisa a fazer com a quantia. Estavam indo tomar “um chopp”, o que se sabe que não significa um, mas alguns. O dinheiro não daria pagar nem o primeiro deles, mas, mal não faria. No total da conta, menos R$10.
- Tia, eu sei fazer uma mágica com bala, você quer ver?
Diz um menino que se aproxima da mesa do bar de calçada típico do Rio de Janeiro. Ele tinha talvez uns seis ou sete anos. Parecia um destes meninos que os próprios pais colocam para trabalhar para a família, pedindo ou vendendo algo.
- Sim, claro, como é a mágica?
- Você vira este copo para baixo, fecha os olhos e eu digo as palavras mágicas para aparecer uma bala. Aí, tia, você abre os olhos e compra a minha bala. Quer ver a mágica?
- Sim, quero, respondeu Tainá. Faz para nós a mágica.
Seguindo o que parecia ser um ritual e dizendo palavras que rimavam como “abracadabra, uni, du, ni, tê, salameminguê, aparece bala para você” o menino fez surgir uma bala, que vendeu para Luma.
- Parabéns! Qual é o seu nome?
- Abrahão, o mágico. É assim que minha mãe me chama. Ela está ali com os meus irmãos. Sou o mais velho e ajudo ela vendendo balas e fazendo mágicas.
- E seu pai?
- Eu não tenho pai. Sou o homem da casa.
- Você falou em mágicas, mas que outras mágicas você faz?
- Eu tenho uma outra que é muito legal, mas a minha mãe não deixa fazer, porque ela diz que podem me roubar. É uma mágica com dinheiro.
- Que massa! – disse Tainá. Você pode me mostrar como é? Nós não vamos roubar você, não.
- Tá bom, mas minha mãe não pode saber porque senão ela briga. Eu faço aparecer dinheiro.
Abrahão pegou o mesmo copo e falou: fecha os olhos para eu dizer a frase mágica. Enquanto elas fechavam os olhos, ele repetiu as mesmas palavras, enquanto colocava uma nota de dez reais que pegou numa sacola que carregava.
- Podem abrir os olhos agora. Tão vendo, tias? Apareceu dinheiro. Eu sou mágico. Mas, deixa eu guardar o dinheiro antes que a minha mãe chegue.
Tainá e Luma se olharam e sabiam que tinham tido a mesma ideia.
- Espera aí, Abrahão. Nós também sabemos fazer mágica. Deixa o dinheiro no copo e fecha os olhos, você agora. Não fala para ninguém, mas nós somos bruxas boazinhas. Nós vamos duplicar ele.
-“Abracadara, uni, du, ni, tê, salameminguar, faz o dinheiro dobrar”.
Colocaram, então, embaixo do copo os R$ 10,00 que haviam encontrado no chão e disseram para o menino abrir os olhos.
Ele não se conteve. Escancarou os olhos ao máximo e pulava sem parar, enquanto gritava para a mãe, que estava do outro lado do bar:
- Mãe, elas sabem dobrar o dinheiro. Elas são bruxas boazinhas. Vou ficar rico, mãe. Vou poder ajudar você. Obrigado, papai do céu.
Talvez você pense que não foi uma boa ideia dar R$ 10,00 para uma criança de seis anos, mas podemos deixar isto de lado agora. Tainá e Luma plantaram uma pequena semente de felicidade. Enquanto faziam isto, elas mesmas já estavam colhendo. Passaram-se dias e o efeito do chopp já acabou há muito tempo, mas a alegria no coração delas continua forte. Não precisamos de grandes gestos, mas de pequenas sementes para fazer para todos um mundo melhor. Cada um no seu pedaço.
Para nós fica a questão: que mágicas estão ao nosso alcance realizar?
Deixe um comentário